QUEM É MARIA...


Coroar a Maria, hoje 

Os símbolos resistem à história que os gerou. Coroa, coroação remontam à Antiguidade. Vêm do Oriente. Os orientais amam as pompas, os ritos, as solenidades longas e festivas. O Ocidente romano opta pela sobriedade. Mas mesmo assim deixou-se seduzir frequentemente pelas belezas do Oriente.


Conhecemos coroações de reis, imperadores, papas. Paulo VI, ao despojar-se da tiara, doando-a aos pobres, encerrou a longa tradição de coroação de papas. As coroas simbolizam também vitórias desportivas ou literárias, triunfos militares, manifestações do poder e da divindade. Há as simples, como a coroa de louros.


As coroações de reis quase desapareceram. As democracias criaram uma conferição de poder absolutamente secularizada e despojada do esplendor das entronizações antigas. Entre os imperadores, sagrados nos ritos litúrgicos, estão os nossos dois Pedro I e II.


A coroação, no entanto, permanece viva na fantasia, especialmente infantil. Daí a importância da coroação de Nossa Senhora. Ela toca o coração inocente das crianças que se encantam do rito, do canto, da roupa, do conjunto gestual, de participar desse mundo diferente, bonito, de pureza. Tão diferente das misérias que elas vêem e sofrem a seu lado. A coroação arrebata-as para um nimbo suave e agradável. E os adultos, que não perderam a dimensão simbólica da vida, vivenciam com gozo tal momento litúrgico. O visível da inocência terrestre a coroar a Virgem do Céu arranca-os da realidade tão pouco inocente e tão longe do céu. A coroação de Nossa Senhora pertence ao patrimônio espiritual da Igreja. Mantê-la viva resguarda riqueza da alma religiosa brasileira.


A presença da Virgem Maria na vida e cultura do povo, malgrado o solapamento que vem sofrendo por parte de crentes influenciados por ondas de outra cultura e origem, permanece um valor, independentemente de devoções pessoais. Vibra a corda interior que nos torna a vida mais humana, sensível, poética. Eleva-nos de cotidiano desgastante e estressante para a presença do mistério. Maria simboliza, na sua realidade de Mãe de Jesus e de seus seguidores, o necessário lado feminino da fé e da religião.


Sob esse ângulo, a coroação de Maria oferece-nos um gancho para relacioná-la com o dia das mães. Há um jogo de distância e proximidade entre ambos. A coroação encontra em passado longínquo sua origem e por isso nos deixou marcas indeléveis no imaginário. Institui-se o dia das mães, em data recente, ligado a interesses comerciais. No entanto, ambas encontram-se no mais profundo do inconsciente humano. Coroação e mãe traduzem arquétipos, cujo conteúdo de imagem e de símbolo mexe com o inconsciente social, compartilhado por toda a humanidade. E a força desses símbolos aparece nas estórias infantis, nos mitos e nas lendas do povo e toca o interior de cada um de nós. Quem não deixa de sonhar, imaginar e sentir desejos elevados quando lhe soa a palavra mãe, lhe desenha a imagem da coroa ou lhe vem a recordação das coroações da infância? Necessita ter sido estragado simbolicamente para secar-se diante de tal manancial imagético.


A ressonância do termo mãe nem sempre corresponde à realidade concreta da mãe de carne que se tem. Mas o fato de sua alta força simbólica provoca duplo efeito positivo. Estimula as mães a realizarem na vida real aquilo que o mito mãe criou delas. Ter diante de si um horizonte amplo ajuda-as a andar em sua direção. O ser humano carece de ideais para prosseguir a caminhada no meio das dificuldades. Custa ser mãe hoje. Elas precisam dessa mola simbólica que as anime e fortaleça.


A imagem idealizada da mãe contribui para despertar nos filhos energias espirituais de crescimento humano. Esse amor tem dimensão espontânea de gratuidade e serve para mantê-los em atitude semelhante em relação aos irmãos e aos outros.


Coroar Maria hoje significa mais do que simples ato de piedade tradicional. Tem alcance religioso e simbólico que humaniza uma cultura em vias de perder a sensibilidade para realidades superiores e de afundar-se no hedonismo materialista. 

Partilho com você este texto de JB Libanio, muito apropriado para este mês de maio.
Afonso Murad, Teólogo, ambientalista, professor universitário e escritor.



As "Nossas Senhoras" são a mesma Mãe de Deus

Maria de Nazaré foi escolhida por Deus para ser a Mãe do Salvador: “Quando Isabel estava no sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem prometida em casamento a um homem de nome José, da casa de Davi. A virgem se chamava Maria” (Lucas 1,26-27).

A quantidade de títulos e nomes para a mesma pessoa são fruto das experiências que os povos fazem da intercessão e da maternidade da Virgem Maria. Em seus títulos Nossa Senhora assume várias realidades, situações, raças, apelos e clamores da humanidade. Alguém muito humana e próxima às realidades do nosso povo, por isso, tão popular.

São vários títulos e nomes, mas uma e mesma pessoa. Maria de Nazaré da Galileia, esposa de José e Mãe de Jesus Cristo, das Graças, das Dores, de Fátima, de Lourdes, da Conceição, dos Aflitos Auxiliadora, Mãe Rainha e Aparecida do Brasil a mulher do Gênesis ao Apocalipse. Todas as "Nossas Senhoras" são a mesma Mãe de Deus!

Nossa Senhora do Equilíbrio, você conhece? Precisamos deste dom que é o santo equilíbrio. Com sabedoria e discernimento colocar as coisas no devido lugar e tomar as decisões certas. Maria é nossa formadora, por excelência, e clama o Espírito Santo sobre nós como o fez quando estava no cenáculo com os Apóstolos.

Lembrei-me de uma devoção que eu trazia e rezava quando ainda era seminarista, a Nossa Senhora do Equilíbrio. Pouco conhecida, mas deste então eu rezo a Virgem Maria, que tem muitos títulos e como nenhum outro ser humano foi equilibrada e controlada pelo Espírito Santo de Deus.


Oração a Nossa Senhora do Equilíbrio

Virgem Mãe de Deus e dos homens, MARIA. Pedimos-vos o dom do equilíbrio cristão, hoje tão necessário à Igreja e ao mundo. Livrai-nos de todo o mal; salvai-nos do egoísmo, do desânimo, do orgulho, da presunção e da dureza de coração. Dai-nos tenacidade no esforço, calma no insucesso, humildade no êxito feliz. Abri nossos corações à santidade. Fazei que pela pureza de coração, pela simplicidade e amor à verdade, possamos conhecer nossas limitações.

Alcançai-nos a graça de compreender e viver a Palavra de Deus. Concedei-nos que, pela Oração, Amor e Fidelidade à Igreja na pessoa do Sumo Pontífice, vivamos em comunhão fraterna com todos os membros do Povo de Deus, Hierarquia e fiéis. Despertai-nos profundo sentimento de solidariedade entre irmãos, para que possamos viver, com Equilíbrio, a nossa Fé, afetividade e sexualidade na Esperança da eterna salvação. Nossa Senhora do Equilíbrio, a Vós nos consagramos, confiantes na ternura da vossa maternal Proteção.

Divino Espírito Santo, que deste a Maria todo o equilíbrio emocional e físico, dai-nos a graça de abandonar em vós nossos sentimentos e emoções, desejos e aspirações, a amar acima de tudo a Deus e não querer nada que nos prejudique nem nos afaste da Sua Vontade. Dai-nos a graça da paciência nas demoras, do discernimento para procurar as pessoas certas que nos ajudem, da cura de nossas feridas emocionais provocadas pela falta do amor verdadeiro e de escolhas erradas.


Autor: Padre Luizinho, Missionário Canção Nova
Data: 13/05/2011
Fonte: Canção Nova


O papel singular de Maria 
na economia da Salvação

Introdução

Muitos escritos apócrifos podem ser de grande valia, mas alguns também podem ser decepcionantes. Alguns apócrifos são gnósticos ou carregados de outras heresias e inverdades. Entretanto, vários outros apócrifos carregam consigo fatos verdadeiros e ainda outros que não podem ser confirmados. Dessa maneira, o Evangelho Secreto da Virgem Maria nos traz, uma imagem mariana que ajuda, ao menos em mínimas proporções, a entender o papel da Mãe de Deus na história da salvação, um papel singular que só poderia ter sido cumprido por ela.

É bom dizer antes de tudo que o “Evangelho Secreto da Virgem Maria” não é um texto divinamente inspirado e tampouco aceito como verdadeiro ou canônico. Sua autoria ainda é incerta, além de em muitos trechos existirem equívocos teológicos. Certamente ele é apenas uma composição literária dos primeiros séculos do cristianismo onde o autor tenta mostrar o mundo através dos olhos da Imaculada de maneira bastante ousada. Entretanto, o Evangelho Secreto da Virgem Maria já traz consigo a concepção da intercessão dos justos, mortos para este mundo, mas vivos para Cristo pelos vivos, confirmando assim que há o céu logo após a morte, há também a ideia de que Maria era de fato a graça em plenitude, e que Maria é pra sempre virgem, além da fervorosa narração relacionada a São José, lhe acompanhando nessa virgindade perpétua, temática defendida por vários teólogos modernos, a concepção imaculada de São José.

O escrito peca, entretanto, ao tentar de maneira ousada mostrar como era o olhar da Virgem Santíssima, bem como ao mostrar um Cristo que muitas vezes não sabia de sua divindade, além de cometer erros como não distinguir Maria Madalena de Maria irmã de Lázaro.

É claro que erros como esses já eram esperados, pois se trata de um texto apócrifo, e não de um texto inspirado, mas há um grande grau de elementos comuns entre esse texto e o Catolicismo. É comum observar a verdade mesmo em meio às heresias, e essas verdades nos dão luz, de como era o olhar para Maria entre os primeiros cristãos.

Essa introdução nos ajuda a ver que mesmo pessoas de crença duvidosa nos primeiros séculos do cristianismo já tinham um carinho especial pela Mãe de Deus, título que já aparece também nesse “evangelho” assim como aparece no Evangelho Segundo São Lucas (cf. Lc 1, 43).


Maria, graça plena, medianeira junto a Cristo

Maria é chamada pelo anjo Gabriel de “cheia da graça” (cf. Lc 1, 28). Esse termo designa Nossa Senhora como a graça em plenitude. É um vocativo grego de difícil tradução, um termo atemporal que exprime aquela que era, que é e que sempre será agraciada. Seria equivalente a dizer tecida na graça, coroada pela graça. Desse pequeno trecho tiramos em partes o dogma da Imaculada Conceição.


Nossa Senhora certamente, se era, é e sempre será graça em plenitude, nasceu coroada pela graça, sem a mancha do pecado original. Mas Nossa Senhora teve de ser salva por seu filho pelo sacrifício na cruz, que é atemporal. O Sacrifício não existiu apenas para os que viviam naquela época, mas sim para os que viveram antes, depois e durante a primeira vinda de Jesus. A Salvação é para todos, mais percebida por poucos a morte de Cristo foi um sacrifício infinito, pois foi o sacrifício do filho de Deus que é Deus com o Pai e com o Espírito este sacrifício foi eterno, pois o Deus trino que professamos é eterno.

Maria foi concebida sem o pecado original, isso é ensinado de forma implícita por São Lucas nesse pequeno trecho do Evangelho, São Lucas que é um mariólogo destacado e rico em detalhes quando em seu Evangelho registrou os eventos relacionados à Virgem. Maria é superior aos anjos, é a criatura mais perfeita que pode existir, pois nunca se observa um anjo maravilhado com um ser humano em toda a Sagrada Escritura a ponto de saudá-la com termo tão majestoso “Cheia de graça”. Entretanto o anjo ao ver Maria a saúda “graça em plenitude” [termo que corresponde de forma mais perfeita as palavras originais do evangelho] e ela, por sua humildade se perturba com semelhante saudação.

Os anjos como mensageiros de Deus levaram essa saudação à Maria, saudação essa que partiu do Altíssimo. Nunca em toda a Sagrada Escritura aconteceu episódio similar, apesar de vários anjos mensageiros terem sido enviados por Deus a homens sábios no Antigo Testamento, em nenhuma destas narrações um anjo reconhece a graça em um ser humano. Nossa Senhora não podia ter o pecado original, pois sendo esse pecado passado de pai para filho, se Nossa Senhora o tivesse, ela o teria passado a Jesus, e é pelos méritos de Cristo que ela foi preservada por Deus, pois ali naquele Tabernáculo, o santo ventre de Maria, gerou-se a Salvação na pessoa de Jesus. Deus quis que a Rainha nascesse sem o pecado para que Jesus não o tivesse.


Maria, Mãe de Deus

Eis outro grande enigma. Jesus enquanto plenamente Deus não era descendente de ninguém, pois procede do Pai e com o Pai e o Espírito Santo, forma apenas um. Entretanto, negar a maternidade divina de Maria é negar a redenção. Se as naturezas humana e divina de Jesus fossem separadas, então o sacrifício na cruz não teria servido para nada. Nosso Senhor teria morrido em vão.

Os sacrifícios do Antigo Testamento não limpavam a mancha do pecado, que é uma ofensa infinita a Deus. Eles apenas limpavam parcialmente. Ora, se o pecado é uma ofensa infinita a Deus, então há necessariamente que ter um sacrifício infinito capaz de limpar os pecados da humanidade.

Se a natureza humana de Jesus é distinta da natureza divina, como alegaram diversas correntes heréticas no decorrer da História, quem morreu na cruz foi um homem, pois a divindade não morre. Se quem morreu na cruz é um homem, então o pecado não foi remido, pois se assim fosse, qualquer homem que fosse oferecido em sacrifício teria sido suficiente para redimir os pecados da humanidade. Tomando este raciocínio os concílios da Igreja, condenaram tais teses.

Muito diferente, entretanto, foi o Santo Sacrifício de Cristo. Ele, morrendo na cruz, de uma vez por todas venceu o pecado através de sua morte e ressurreição. Então, quando Maria gerou Jesus, ela gerou de fato um ser plenamente homem e plenamente Deus, cujas naturezas são inseparáveis és a doutrina sempre professada pela Igreja.

Dessa maneira, o Sacrifício de Cristo foi um sacrifício infinito, pois foi um sacrifício de um Deus que se fez homem em tudo, exceto no pecado. Sendo infinito, esse sacrifício lavou nossas culpas e nos fez filhos de Deus.

Portanto, se Nossa Senhora não é Mãe de Deus, as naturezas humana e divina de Nosso Senhor têm que ser distintas e certamente o sacrifício teria sido inútil, tomando este raciocínio o Arianismo, negou a maternidade divina de Maria e o uso do título, Mãe de Deus. No entanto o Concílio de Éfeso em 431 d.C. confirmou dogmaticamente a Maternidade divina de Maria. Assim as naturezas humana e divina de Jesus estão unidas, foram geradas no corpo de Cristo no ventre de Maria Santíssima, tornando possível a redenção.

As mães de todos nós não são capazes de gerar almas, pois a alma quem gera é Deus. Entretanto, essa incapacidade não tira delas o título de mães nossas. De forma semelhante, Maria por não ser Mãe de Cristo enquanto Deus anterior a Maria; não tira dela o título de Mãe de Deus, pois Jesus Cristo é ao mesmo tempo tão humano que teve de ser gerado por uma mulher e tão Deus que nos remiu de nossos pecados. A encarnação é, portanto, um mistério insondável aos olhos humanos.


Maria, medianeira de todas as graças

Na Bíblia em momento algum fala-se que é inútil a oração da Igreja para a conversão dos fiéis. Através do batismo somos todos unidos ao Corpo Místico de Cristo (I Cor 12,12), remidos do pecado original. Assim, somos um só corpo no amor de Deus.

Se somos uns só corpo, não há diferença entre mortos e vivos no que se refere à capacidade de orarmos uns pelos outros, pois nosso tesouro escondido está no alto. Ora, se assim é, então todos os membros se beneficiam com a oração dos membros da Igreja e por isso, Nossa Senhora como Mãe da Igreja também ora por seus filhos.

Maria é medianeira de todas as graças, pois conforme já mostrado e também afirmado por diversos santos, doutores e papas; é Mãe de Cristo e como somos parte do corpo d’Ele, Maria é nossa mãe. Se a graça provém do Verbo, logo a graça passa por Maria, mãe do Verbo. Dessa maneira a Igreja crê que as graças obtidas pelos fieis, chegam também pelas mãos imaculadas da Virgem Santíssima, pois que a ela pode-se recorrer, ante a mediação única que exerce o Senhor Jesus junto ao Pai (I Tm 2,5).

O fato da Palavra de Deus, citar Jesus como único mediador entre Deus e os homens não acaba com a co-mediação de outros, inclusive Maria. Como somos parte do Corpo de Cristo que é a Igreja, assim somos todos comediadores e por isso a intercessão tem valor. Muito mais valor e muito mais força tem a oração dos que já estão em comunhão plena com Deus na visão beatifica. Maria sempre esteve em comunhão, pois jamais conheceu o pecado e por isso, a intercessão de Maria é a intercessão que excede a petição de todos os demais bem aventurados.

SEX, 22 DE ABRIL DE 2011    EDUARDO MOREIRA E JOHN LENNON J. DA SILVA













Salve Rainha
Salve Rainha
Mãe, educadora e discípula de Jesus
filha querida do Deus misericórdia.
Sinal humano da Trindade:
Vida, doçura e esperança.
A ti clamamos,
homens e mulheres filhos da Terra.
Contigo nos alegramos nas conquistas do Bem,
Contigo suspiramos, chorando nos momentos de dor.
Volta seu olhar para nós.
Mostre-nos Jesus, o bendito fruto do teu ventre.
Roga por nós, santa mãe do Filho de Deus encarnado,
Jesus nosso mestre e Senhor.
Amém!

Oração: Ir. Afonso Murad
Imagem: Imaculada - Rubens (detalhe)

Salve Rainha para nossos dias

Você já deve ter percebido que a oração da "Salve Rainha" tem muitas expressões que já perderam o sentido para o homem e a mulher do nosso tempo. Esta oração, de origem medieval, expressa uma visão pessimista. Denomina os seres humanos como "degredados filhos de Eva". Vê o mundo somente como "vale de lágrimas". E sem contar que não faz referência a Deus Pai e ao Espírito Santo. Jesus aparece somente no final, e não no centro da oração Hoje recebi um bilhetinho verde intitulado "Salve Rainha para o Século XXI", de atoria do Ir. Glauco Vilhena.  A partir de sua bela oração, arrisco, sem pretensões, uma Salve Rainha atualizada: referida ao Deus trindade, com um visão mais positiva sobre o mundo e nós.

Se você gostou, reze com ela e a divulgue.


Salve Rainha, Filha predileta de Deus Pai,
Mãe e educadora de Jesus, e Templo do Espírito Santo.
A vós suplicamos, desta terra abençoada,
em que Deus nos colocou
para realizar a obra de sua glória.
Guiai-nos, confortai-nos e protegei-nos.
Ajudai-nos a encontrar a verdadeira alegria e a felicidade,
tornando Jesus conhecido, amado e seguido,
no serviço aos irmãos e irmãs,
e no cuidado com o nosso planeta.
E assim, caminhando com o vosso olhar materno,
conduzi-nos até o encontro definitivo com Deus.
Amém.

Postado por Afonso Murad
Marcadores: Salve Rainha


Oração à Maria peregrina

Maria, fortalece-nos na nossa travessia.
Tu, que foste peregrina na fé, arriscando-te em Deus, renovando tua opção diante dos novos desafios, ajuda-nos a não parar no meio da estrada.
Quantas vezes, Maria, a escuridão nos invade a alma.
O desânimo toma conta de nós e não temos mais vontade de caminhar.
Mostra-nos que vale a pena, dá-nos a mão.
Jesus está conosco!
Ensina-nos, sobretudo, a descobrir, como tu, que a travessia é bela.
Amém. 





Peregrina na fé

O evangelho de Lucas diz que Jesus caminha à frente dos seus discípulos, em direção a Jerusalém. Trata-se de um longo trajeto, narrado de Lc 9,51 a 19,28. É no caminho que Jesus vai ensinando aos seus seguidores uma nova forma de ver as pessoas e o mundo, de se relacionar com os outros e com o Pai. Pelo caminho, Jesus encontra pessoas que não agüentam as exigências do seguimento (Lc 9,57-61). Envia os setenta e dois discípulos em missão (Lc 10,1-17). Estando a caminho, entra num vilarejo, onde é recebido por Marta e Maria (Lc 10,38-41). Por onde passa, cura doentes (Lc 14,1-5). Reintegra os pobres e excluídos no convívio social. Cada encontro ou acontecimento é motivo de uma nova aprendizagem para os discípulos. Jesus fala do Reino em parábolas (Lc 12,16-48; 13,18-21). E revela o Pai misericordioso (Lc 15). Alerta para o perigo do apego às riquezas (Lc 16,13). Nestes 10 capítulos de Lucas, alternam-se fatos e palavras, expressões e gestos.

Jesus chama à conversão (Lc 13,5), esse movimento de mudança do mal para o bem, ou do bem para um bem maior. Muitas vezes, o seguidor de Jesus tem que mudar de rota, para se manter no caminho certo. Outras vezes, é só corrigir um pouco. Mas precisa estar sempre atento, com o espírito de aprendiz e o coração de criança. A travessia da fé e do seguimento é tão nova e original, que os discípulos têm dificuldade de compreender o sentido de muitas palavras de Jesus, que lhes parecem obscuras: “Mas eles não compreenderam nada. Esta palavra lhes permanecia velada e eles não sabiam o que Jesus queria dizer” (Lc 18,34).

Com Maria, a perfeita discípula de Jesus, acontece algo semelhante. Ela deu um “sim” decidido a Deus, quando era muito jovem. Iniciou uma travessia, que ela não sabia com detalhes aonde iria levá-la. Faz parte da experiência da fé arriscar, abrir-se ao novo, passar pela incerteza da noite escura. Ela teve que renovar seu compromisso com Deus muitas vezes. Como nós, estava sujeita a desviar da rota ou parar no caminho.

Muitos imaginam que Maria já nasceu como uma “santa prontinha e acabada”. Pensam que já sabia de tudo, já conhecia com detalhes o que ia acontecer com ela e seu filho. Alguns chegam a afirmar que ela teria sido poupada de fazer a travessia da fé. Já estaria, desde o começo, com todas as certezas. A partir de Lucas, vemos que essa idéia é equivocada. Na cena da apresentação de Jesus, Simeão dirige a palavra a Maria: “Eis que esse menino causará a queda e a elevação de muitas pessoas. Será um sinal de contradição, - e para você, uma espada traspassará sua alma – e assim serão revelados os pensamentos íntimos de muitos corações” (Lc 2,34s).

Normalmente, interpreta-se que a “espada”, da qual fala Simeão, seria o sofrimento na cruz. Podemos imaginar que Maria tenha experimentado uma grande tristeza, no momento da morte de Jesus. Naturalmente, a imagem da uma espada cortando a alma evoca tristeza. É comum usar a expressão: “isso me cortou o coração”, para expressar um sentimento de sofrimento, de dor. E a piedade cristã, especialmente a partir da Idade Média, moldou com muita força a imagem de Maria como a “Mãe das Dores” (Mater Dolorosa), sofrendo e chorando aos pés de cruz. Esta não é a mensagem transmitida por Lucas. O evangelista parece desconhecer a participação de Maria na paixão de Jesus. Na cena da morte de cruz, não cita a mãe de Jesus: “Todos os seus familiares se mantinham à distância, como também as mulheres que o seguiam desde a Galiléia e que olhavam” (Lc 24,49).

O sentido da expressão “espada que traspassa a alma” deve vir de outra analogia. Veja esta citação do profeta Isaías: “O Senhor fez da minha boca uma espada afiada”(Is 49,2), e da Carta aos Hebreus: “Pois a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes. Julga as disposições e as intenções do coração. E não há criatura oculta à sua presença” (Heb 4,12s).

À luz desses textos, entendemos que a espada significa o desafio do próprio Jesus, Palavra viva de Deus. Maria foi desafiada pelas palavras e atitudes de Jesus, que eram tão diferentes das pessoas de seu tempo. À medida que Jesus diz ou faz algo novo, Maria se sente chamada a dar mais um passo na fé. Ela vive a experiência originária do seguidor de Jesus, de aprendiz do mestre. Tal interpretação, que pode nos parecer tão diferente, se confirma a partir da leitura do relato da perda e do reencontro de Jesus no templo. Leia Lc 2,41-50.

Ao ver Jesus adolescente, no meio dos mestres, Maria e José “ficaram tomados de grande surpresa” (Lc 2,48). Lucas antecipa aqui a consciência filial de Jesus em relação ao Pai, que na realidade só amadurecerá mais tarde: “Por que vocês me procuram? Não sabiam que eu devo estar junto do meu Pai?” A reação de Maria e de José é a mesma dos discípulos, já citada em Lc 18,34: “Mas eles não compreenderam o que lhes dizia” (Lc 2,50).

Maria não alcança ainda o sentido pleno das palavras de Jesus. Fazem parte do peregrinar da fé os momentos de escuridão, de compreensão limitada. Então, a razão se cala e alma se entrega a Deus, procurando um sentido mais profundo.

Logo após esta cena, aparentemente desconcertante para Maria, Lucas diz que Jesus volta para Nazaré, mostra-se um filho obediente, e passa pelas etapas de crescimento humano e espiritual: “Jesus crescia em sabedoria, idade e graça, diante de Deus e diante dos homens (Lc 2,51s)”. Como Maria enfrenta esta crise de crescimento? Fazendo memória, recordando, sendo aprendiz. “Ela guardava todos estes acontecimentos no seu coração” (Lc 2, 51).

Talvez o mais duro desafio que Maria enfrentou, em confronto com Jesus, foi aceitar posição de liberdade que ele tomou em relação à família. No tempo de Jesus, as relações familiares eram muito fortes. A pessoa se sentia dependente, por toda a vida, de seus pais, irmãos e parentes próximos. Deles recebia muitos favores e graças e se sentia na obrigação de retribuir. Devia manter a fama e o bom nome da família. Na família, a mãe trabalhava duramente, mas também tinha alguns privilégios. Controlava a vida dos filhos e era muito honrada por eles.

À medida que desenvolve sua missão, Jesus percebe que precisa estar livre para anunciar o Reino e falar da misericórdia do Pai. Ele faz uma ruptura difícil, que causou incompreensão no meio de seus parentes. Corta os laços de dependência com a família. E diz claramente que os membros de sua nova família são os que fazem a vontade de Deus (Lc 8,19-21). Jesus também incentiva seus discípulos a romper com essas relações familiares de dependência e a renunciar aos seus privilégios, para segui-lo mais de perto (Lc 18,28-30). Daí se entende a estranha frase de Jesus: “Se alguém vier a mim sem me preferir ao seu pai, à sua mãe, à sua mulher, aos seus filhos, aos seus irmãos e irmãs, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). Jesus não está condenando a família, mas denunciando um tipo de relação familiar que faz mal às pessoas, pois lhes tira a liberdade para servir ao Pai e ao Reino.

Como Maria enfrentou tudo isso? Deve ter sido difícil para ela renunciar aos privilégios de mãe, perder o controle sobre Jesus, não tê-lo dentro de casa. Jesus não pertence mais à sua família. Sua posição é uma espada cortante. Mas Maria dá um salto de fé. Aceita o desafio e corrige sua rota. Entra humildemente no grupo dos seguidores, dos aprendizes de Jesus. Aquela que educou Jesus na infância e juventude, agora está lá para aprender. Não tem lugar de destaque. Despojou-se de seu poder de mãe para se tornar discípula de Jesus. Que bela travessia na fé!

Nós temos muito que aprender dessa atitude de Maria. Ao olhar para ela, sentimo-nos mais animados, pois compreendemos que não estamos prontos, que a vida é uma travessia. Descobrimos também que até as crises de fé são oportunidades de crescimento. Reconhecemos que somos peregrinos na fé e nos colocamos, com alegria e humildade, no caminho do Senhor.


Postado por Afonso Murad
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Oração: Maria e o Espírito

Bendita és tu, Maria,
templo do Espírito,
Morada materna do Filho de Deus encarnado,
Discípula ungida pelo Senhor Jesus.

Postado por Afonso Murad
Marcadores: Oração: Maria e o Espírito Santo


Oração com Maria, aquela que frutifica na fé

Obrigado, Senhor, pois nos deste Maria como tua perfeita discípula.
Ensina-nos a acolher a tua Palavra, na fé.
Ajuda-nos a cultivar a interioridade.
Faze de nós “realizadores da Palavra”.
Multiplica em nós as sementes do Bem e os frutos do teu Reino.
Amém. 

Postado por Afonso Murad
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Frutificar com a fé 

 Lucas nos conta que, logo depois da anunciação, Maria sai às pressas para visitar sua parenta Isabel. Parte de Nazaré, na Galiléia, para outra região, a Judéia, distante dali no mínimo 50 Kilômetros. Leia o relato de Lc 1,39-45, que tem muitos elementos simbólicos.

Talvez Lucas não tivesse clara essa intenção, mas o povo, ao ler o texto da visitação, descobre que Maria é missionária. Transbordando da graça de Deus, não quer retê-la para si. Vai partilhar com sua parenta, de idade avançada, que está grávida e necessita de cuidados. Discretamente, ela já leva Jesus para os outros. Isabel sente logo o resultado. O feto se movimenta dentro dela. Quando se saúdam e se abraçam, o Espírito Santo inunda o ambiente e elas transbordam de alegria. Maria está cheia de Deus. Isabel também. Nessas duas mulheres grávidas se encontram, em semente, seus filhos João Batista e Jesus. Já estão, lado a lado, o precursor e o messias, o que prepara e o que realiza a Boa-Nova, o profeta de Deus e o Filho de Deus. Que lindo encontro! Isabel proclama: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre”(Lc 1,42).

Lucas coloca na boca de Isabel um louvor que faz eco de duas passagens das Escrituras Judaicas nas quais se reconhece a participação especial de mulheres no Povo de Deus. Em Juízes 5,24, se bendiz a Héber, por lutar contra a opressão dos cananeus, golpeando o homem Sísara. Em Judite 13,18-20 se louva Judite, que com coragem e estratégia, eliminou o general do exército da Assíria, Holofernes. Maria é colocada assim dentro da história das mulheres fortes do povo de Israel, que contribuíram para mudar a sorte da sua nação.

“Bendita” significa um louvor à pessoa e reconhecimento que ela é destinatária da benção e do favor de Deus. Reforça o sentido das expressões “cheia de graça” ou agraciada (Lc 1,28) e “encontraste graça diante de Deus” (Lc 1,30), do relato da anunciação. Bendita entre as mulheres quer dizer: a abençoada por excelência. Isso não significa um mero privilégio, mas sim uma graça que possibilita a resposta mais intensa ao apelo de Deus. Em Maria se encontram a gratuidade do amor de Deus e a entrega generosa do ser humano, ou seja, a Graça e a Fé.

“Bendito é o fruto do teu ventre” significa que a fé torna Maria fértil de corpo e alma.

Por causa de sua adesão a Deus, do seu compromisso com o projeto divino, Maria realiza a benção de fertilidade prometida ao povo de Deus no livro do Deuteronômio:

“Se tu obedeceres à voz do Senhor, essas serão as bênçãos que virão sobre ti e te envolverão: bendito serás na cidade, bendito serás nos campo; bendito será o fruto do teu ventre, o fruto do teu solo e dos teus animais. Bendito serás ao chegar e ao sair. A benção do Senhor estará em todas as tuas realizações” (Dt 28,1-4.6.8).

Conhecendo a fé de Maria, semeada, cultivada e amadurecida em belos frutos, podemos entender as reações e expressões de Jesus, narradas por Lucas, nos relatos da vida pública. Longe de ser uma ofensa à mãe, as palavras de Jesus revelam o segredo de Maria. Seu principal mérito está em ser uma pessoa de fé, que acolhe a palavra de Deus e a concretiza. Ser mãe é uma conseqüência de sua fé e uma forma dela realizar a vontade de Deus. Quando os familiares de Jesus vão procurá-lo e não conseguem alcançá-lo por causa da multidão, ele diz: “A minha mãe e meus irmãos são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21).

Em outra ocasião, Jesus está falando à multidão, quando uma mulher grita repentinamente: “Felizes o ventre que te carregou e os seios que te amamentarem”. As imagens de “ventre e seios” aludem claramente à maternidade biológica. Dentro da cultura judaica da época, a mãe deveria receber os méritos de ter um filho tão importante. Jesus destaca novamente que a importância de Maria vem em primeiro lugar de sua fé ativa, que escuta a palavra do mestre e a transforma em gesto. Ele diz: “Antes, bem-aventurados (felizes) os que ouvem a palavra de Deus e a observam” (Lc 11,27s).

Alguns séculos depois, Santo Agostinho dirá que Maria concebeu Jesus primeiro no coração e depois no corpo. Antes de ser a sua mãe carnal, acolheu-o pela fé. Sem a fé, não adiantaria ela ter-se tornado a mãe do Senhor. Agostinho captou bem a mensagem do evangelista.

Resumidamente, qual é a principal característica de Maria, segundo Lucas? Ela encarna com fé a Palavra de Deus. Guarda-a no coração e a coloca em prática, dando muitos frutos. Esses são também os traços básicos de todo discípulo de Jesus. Pela sua fé, Maria é o exemplo do cristão, seguidor e aprendiz do Senhor. Em Maria, a fé se traduz em ser mãe, educadora e discípula de Jesus. Sua importância não reside em primeiro lugar na maternidade. E sim, na fé, compromisso radical e inteiro a Deus e ao seu projeto.

(Texto: Maria, toda de Deus e tão humana. A. Murad. Paulinas.
Imagem: Maria das Rochas, de Michelangelo, detalhe)

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Maria guarda os acontecimentos no coração


Por duas vezes, Lucas diz que Maria guarda no coração os acontecimentos e procura descobrir o seu sentido. Na primeira vez, depois do nascimento de Jesus (Lc 2,19). Ela está contente e surpresa, como toda jovem mãe. Deve ter olhado seu bebê e lhe amamentado com carinho. O menino Jesus está envolvido em panos e deitado no local onde o gado se alimenta. Então, eles recebem a visita dos pastores. Quanta coisa para pensar, para meditar, para descobrir o sentido. Na segunda vez, Jesus está crescido. É adolescente, um rapazinho com seus doze anos. Curioso, cheio de iniciativa, ousado, Jesus se encontra no templo, conversando com os doutores. Ouve e questiona. Já antecipa, com esse gesto, o que vai fazer bem mais tarde. Diz uma frase que Maria e José não compreendem: “Vocês não sabiam que devo estar na casa de meu Pai”? (Lc 2,46-49). Maria, mesmo sem entender, guarda no coração. Pensa, reflete, medita, procura o sentido. Conserva a lembrança dos fatos. Faz memória (Lc 2,51).

Quando o evangelista põe duas vezes essa mesma atitude, no começo e no fim da “vida familiar” de Jesus, quer dizer que era algo constante em Maria. Ela cultivava um hábito, um jeito de ser. Maria vive um dos traços marcantes da espiritualidade do Povo da Bíblia: a memória, a recordação. A Escritura Judaica continuamente apela para que, recordando o passado, tenhamos gravado na mente e no coração como Deus fez maravilhas pelo seu povo, o escolheu e lhe deu uma missão. (Ver Dt 4,32-40).

Para ser fiel a Deus, o povo deve recordar que foi libertado do Egito, da casa da escravidão (Dt 6,12s), que caminhou muitos anos no deserto, passou por enormes dificuldades e foi educado por Deus (Dt 8,2-5). O Senhor fez com ele uma aliança, válida no passado e no presente (Dt 5,1-4). A infidelidade começa com o esquecimento. Apaga-se da “memória do coração” como Deus foi misericordioso com o seu povo. Os profetas trazem de volta a consciência perdida, denunciam o esquecimento, resgatam a atualidade da aliança. Por isso, clamam com tanta insistência: “Escutem!” (Is 48,1), “lembrem-se”!(Is 46,9). Recordar não é nostalgia, volta saudosa ao passado.Trata-se de recordar para acordar, tomar consciência, voltar-se para o Deus da Vida.

Diferentemente de outros povos, que faziam do culto religioso um resgate simbólico do ciclo da natureza, o povo de Israel cultua a Deus recordando-se da sua ação criadora e libertadora e renovando o compromisso com a Aliança. Muitos salmos são oração de memória, atualizadas para o presente em forma de súplica, louvor ou ação de graças (Veja Sl 44, 48, 78, 80, 85, 95, 98, 105, 135, 136). A recordação tem um efeito estimulador. No momento do sofrimento, da perseguição e do fracasso, mostra que a situação atual não é definitiva. Da mesma forma como Deus atuou no passado, criando a partir do caos e libertando desde a escravidão, irá conduzir seu povo para um momento novo (cf. Is 43,5-9).

Ao desvendar a personalidade espiritual de Maria como discípula do Senhor, que ouve e medita os acontecimentos, Lucas está tocando numa característica básica da espiritualidade bíblica. Mais ainda. Em leitura contemporânea, diríamos que este traço de Maria diz respeito a todo ser humano maduro e equilibrado.

Vivemos numa sociedade onde as coisas acontecem com muita rapidez. O ritmo de vida da cidade é acelerado. Levantar cedo, comer depressa, enfrentar o tráfego pesado, trabalhar e estudar, e voltar para casa tarde fazem parte da rotina de muitas pessoas. E nem o lar é lugar de sossego. Estamos cercados de sons do rádio e do CD, e do bombardeio de imagens da televisão. Com toda essa agitação e barulho, a gente tem muita dificuldade em parar e escutar a voz interior. Então, os acontecimentos passam por nós, mas não entram. São como água de tempestade sobre a terra, que cria enxurrada e erosão, mas não penetra.

Somos parte de um mundo com pouca memória. Fatos importantes, acontecidos há um ou dois anos, desaparecem da nossa lembrança, como se fossem passado remoto. Some-se a isto a sobrecarga de informações, que não temos tempo de assimilar. Vivemos um fenômeno pessoal e social, intimamente relacionado. Somos uma geração que cada vez menos alimenta a consciência histórica. A mídia cria fatos novos, que facilmente desaparecem de cena, dando lugar a outros. Não há tempo para deter-se, refletir, pensar, elaborar.

Ora, nutrir a consciência histórica exige refletira sobre os fatos, conferir-lhes sentido e estabelecer relação entre eles. Uma existência equilibrada e saudável exige a criação de um espaço interior, no qual a pessoa conecta os acontecimentos e procura seu sentido. Percebe então que sua vida não é um mero suceder de fatos, de experiências prazerosas e tristes, de vitórias e fracassos. Toma consciência dos processos, das metas a estabelecer. Avalia os passos dados. Saboreia as experiências afetivas e amorosas significativas, faz uma “memória do coração”, que o alimenta nos momentos difíceis. 

Com isso, pode manter vínculos afetivos duradouros e profundos. Pois o amor necessita de memória, para não se perder diante das crises.

À medida que a pessoa exercita esta atitude de “guardar no coração” e “buscar sentido para os fatos”, se transforma num aprendiz, num discípulo. Quando acontece alguma experiência forte, ela vai além do nível elementar, da satisfação ou dor. Procura descobrir o que aprendeu com a experiência. Cada novo desafio se transforma em aprendizagem existencial. Então, ela não envelhece. Mesmo que tenha idade avançada, está sempre aprendendo com a vida. Vai conquistando a sabedoria, que é o conhecimento com sabor e sentido, o saber que alimenta e unifica a existência.

O homem e a mulher espiritualizados não se caracterizam pela quantidade de orações e devoções exteriores que praticam. Antes, são seres humanos capazes de interpretar sua história à luz de Deus e aprender com ela. Percebem os sinais de Sua presença na existência pessoal e social. Cultivam a interioridade, como capacidade de dar sentido e unidade às múltiplas experiências da vida. Depois do ruído das muitas palavras, entram no silêncio de quem reverencia o mistério de Deus. NEle repousam e Dele buscam forças. Pois a meditação avançada alcança um estágio no qual escasseiam as palavras e os raciocínios. É entrega e presença. Recordação orante, silêncio, ação de graças, adoração e louvor.

Se compreendermos assim o cultivo da meditação como uma dimensão humana indispensável, como o caminho para o auto-equilíbrio e ser aprendiz da existência, descobriremos também um novo sentido para a relação entre ação e contemplação, pastoral e espiritualidade. De um lado, colocamo-nos à disposição do Projeto de Deus, realizando ações eficazes. De outro lado, precisamos nos recolher e silenciar. Quanto mais intensa e forte a missão, mais necessitamos “mergulhar em Deus”. Como diz o poema do compositor brasileiro Beto Guedes: “A abelha fazendo o mel, vale o tempo que não voou”.

Maria nos ensina a cultivar a interioridade, a meditar. Guardar as coisas no coração, buscar sentido nos acontecimentos e preparar-se para o que vai acontecer. Ela se parece com uma abelha que recolhe o néctar de Deus na vida e o transforma em mel. Colhe, recolhe, elabora e oferece doçura.

(Fonte: Afonso Murad, Maria toda de Deus e tão humana. Ed. Paulinas)
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Oração: Eis-me aqui!

Senhor, na Tua presença me alegro,
Como uma criança diante do brinquedo desejado.
E tu brincas comigo, e eu contigo.
Em Ti me alegro, pois Tu és a grande Boa-Notícia.
Obrigado por receber tantos dons.
Sinto muitos sinais do Teu amor e da tua misericórdia na minha vida.
Assim, venho agradecido, me alegrar na Tua presença.
E, como Maria, digo que podes contar comigo.
Quero ajudar a realizar o teu sonho sobre a humanidade.
Eis-me aqui, como teu Servo.
Eu quero que se faça em mim segundo a tua vontade.
Tu estás comigo.
Teu Espírito repousa sobre mim.
Tu estás em mim.
Ouço a tua voz:
Alegra-te, agraciado, o Senhor está contigo!
Eis-me aqui! 

Postado por Afonso Murad




Maria acolhe a proposta de Deus
                                

Você já deve ter lido o relato da anunciação (Lc 1,26-38). Ele se assemelha a outras cenas de anúncio de nascimento na Bíblia, como a Abraão (Gen 17,19-21), à mãe de Sansão (Jz 13,1-6), e à Zacarias (Lc 1,5-20). É um gênero literário com os mesmos elementos. Deus toma a iniciativa. Anuncia que virá uma criança importante, para contribuir no processo de libertação e salvação do seu povo. Às vezes, há obstáculos a serem superados. A pessoa questiona e Deus lhe oferece um sinal. O anúncio a Maria, em Lucas, tem algo original. Não só prepara o nascimento de Jesus, mas também mostra a vocação de Maria e sua resposta generosa.

O enviado de Deus começa com uma saudação simples: “Alegra-te, Maria” (Lc 1,28). Convida-a a participar da alegria do novo tempo, que começa com a vinda de Jesus (Lc 1,14.44.58 e 2,10). Lucas destaca a alegria como um sinal próprio de Jesus e de seus seguidores (Lc 10,17.21; 19,37; 24,52). Maria também é convidada a se alegrar.

Ela recebe um nome especial, que nenhuma outra pessoa tem na Bíblia: “agraciada” (Lc 1,28). A seguir, diz-se que “o Senhor está contigo”. Na Sagrada Escritura, quando a pessoa tem uma missão importante e difícil, recebe de Deus a promessa que não estará sozinha, pois Ele vai lhe dar força para realizá-la. Veja por exemplo, na vocação de Isaac (Gn 26,3.24), de Jacó (Gn 28,15), de Moisés (Ex 3,11s e 4,12), de Gedeão (Jz 6,12) e de Jeremias (Jer 1,19). Ao dizer: “o Senhor está contigo”, pede-se que a pessoa não tenha medo, confie em Deus e se comprometa. Assim também acontece com Maria.

As expressões iniciais colocadas nos lábios do enviado de Deus, estão cheias de sentido e nos falam de Maria e de sua missão: Alegra-te: Maria, venha participar da alegria do tempo do Messias, que está chegando! Cheia de Graça: Você é alguém muito especial, agraciada por Deus, contemplada por Ele. O Senhor está contigo: Você terá uma missão exigente, mas o Senhor estará do seu lado, dando-lhe força para realizar o que Ele lhe pede.

Diante da proposta de Deus, Maria responde prontamente. O seu “sim” ecoa forte e sem ressalvas. Maria une a liberdade com a vontade: “Eis aqui a servidora do Senhor. Eu quero que se faça em mim segundo a tua palavra” (cf. Lc 1,37). Essa entrega do coração a Deus tem um nome muito simples: fé. Significa arriscar-se e jogar-se nas mãos do Senhor com confiança. Na visita a Isabel, essa lhe diz: “Feliz aquela que acreditou. Tudo o que o Senhor te disse, acontecerá” (Lc 1,45).

Maria não somente ouviu, mas escutou a palavra, acolheu-a no coração. Abriu seu espaço interior, deixou Deus entrar. Saiu de si e investiu sua vida num grande projeto. Lucas nos apresenta Maria como a primeira discípula cristã. Com a anunciação, ela inicia um longo caminho de peregrinação na fé, acolhendo o apelo de Deus. Aceita a proposta do Senhor com o coração aberto, num grande gesto de generosidade e de fé.

Como Maria, nós também recebemos um apelo divino. Temos na lembrança ao menos uma ocasião na vida, na qual Deus nos tocou de forma especial: um retiro, um encontro, conhecer uma pessoa, uma vitória almejada, a superação do sofrimento... Situações na qual sentimos que Deus nos comunicou algo novo, original, forte, que mudou para melhor nosso caminho de vida.

A anunciação a Maria nos lembra que somos também agraciados por Deus, que Ele está conosco, que nos chama a uma missão, e que sua presença produz alegria em nós.

A vocação de Maria é como um espelho para a vocação cristã. Olhando para ela, a gente se vê melhor, enquanto discípulo e seguidor de Jesus.



Postado por Afonso Murad
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Bibliografia básica sobre Maria



1. Livros
AGOSTINHO, St., A Virgem Maria. São Paulo, Paulus, 1996, 177 pp. (breves textos comentados).
BOFF, Clodovis, Mariologia social. São Paulo, Paulus, 2006, 716pp. (Exaustivo manual de mariologia).
BOFF, Clodovis, Introdução à mariologia. Petrópolis, Vozes, 2004, 121pp. (Excente trabalho de iniciação à Mariologia).
BOFF, Lina, Mariologia. Interperlações para a vida e a fé. Petrópolis, Vozes, 2007, 186 pp. (reflexões sobre Maria em Lucas, na Marialis Cultus e em Puebla).
BOFF, Leonardo., O rosto materno de Deus. Petrópolis, Vozes, 1979, 267 pp. (Ensaio polêmico e criativo: reler a figura de Maria à luz do arquétipo do feminino).
BOTELHO MEGALE, N., 112 invocações da Virgem Maria no Brasil, 1986, Petrópolis, Vozes, 376 pp. (Breve apresentação das principais “Nossas Senhoras”)
CALIMAN, C.(org), Teologia e Devoção mariana no Brasil. São Paulo, Paulinas, 1989, 152pp (pequenos artigos de mariologia, de vários autores).
CANTALAMESSA, R., Maria, um espelho para a Igreja. Aparecida, Santuário, 1992, 193 pp (Espiritualidade mariana).
DE FIORES, S., Maria en la teologia contemporanea. Sígueme, Salamanca, 1991, 603 pp. (Obra completa, de caráter programático e histórico-crítico. Retoma as principais correntes da mariologia e reflete sobre os dogmas marianos).
DE FIORES, S. et MEO,S. (org), Dicionário de mariologia. São Paulo, Paulus, 1995, 1350 pp (dicionário imprescindível para estudar mariologia).
FORTE, B., Maria, a mulher ícone do mistério. São Paulo, Paulinas, 1991, 248 pp. (Síntese original dos dados bíblicos e dogmáticos sobre Maria. Resgata elementos da trilogia simbólica mariana (virgem, esposa e mãe).
FRANCIA, A. e Sánchez, G., Maria@sempre. Uma mulher do nosso tempo. São Paulo, Paulus, 2007, 208pp. (catequese e celebrações marianas, com enfoque existencial).
GARCÍA PAREDES, J., Mariología. Madrid, BAC, 1995, 411 pp. (Manual atualizado e didático).
GONZÁLES, C.I., Maria, Evangelizada e evangelizadora. São Paulo, Loyola, 1990, 444 pp. (Manual de mariologia do CELAM, contemplando Maria no Novo Testamento, no dogma, no culto e nas "aparições", em perspectiva conservadora).
GONZÁLEZ DORADO, A., De María conquistadora a María liberadora. Mariologia popular latinoamericana. Santander, Sal Terrae, 1988, 142 pp. (Analisa o valor e a ambiguidade da "mariologia popular", em confronto com a reflexão bíblica e teológica sobre Maria, na perspectiva da teologia da libertação).
L. BINGEMER, M.C. et GEBARA, I., Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres. Petrópolis, Vozes, 1987, 208 pp. (Mariologia na perspectiva da Teologia da libertação e feminista, de caráter teólogico-pastoral).
LAURENTIN, R., María, clave del mistero cristiano. Madrid, San Pablo, 1996, 160 pp (Sintese de mariologia deste famoso escritor francês).
MURAD, A., Quem é esta mulher? Maria na bíblia, São Paulo, Paulinas, 1996 (Mariologia bíblica, destinada a estudantes de teologia).
MURAD, A., Maria, toda de Deus e tão humana. São Paulo, Paulinas, 2004 (Manual de Mariologia de cunho teológico-pastoral)
MURAD, A., Visões e aparições. Deus continua falando? Vozes, 1997. (Análise do fenômeno das Aparições e critérios de discernimento)
NAVARRO PUERTO, M., Maria, la mujer. Ensayo psicológico-bíblico. Madrid, Publicaciones Claretianas, 1987, 292 pp. (Ensaio interdisciplinar bem-sucedido sobre Maria, destacando seu aspecto feminino).
PADRE ZEZINHO, Maria do jeito certo. São Paulo, Paulinas, 2008, 1994. (Livro pastoral lúcido, questionando os excessos marianos na Igreja)
PIKAZA, X., La madre de Jesús. Introducción a la mariologia. Sígueme, Salamanca, 1990, 411 pp. (Excelente trabalho, de cunho espiritual, exegético e especulativo, em diálogo com teologias contemporâneas).
PIKAZA, X., Amiga de Dios. Mensaje mariano del Nuevo Testamento. Madrid, San Pablo, 1996, 258 pp.
KUNG, H (org), Maria nas Igrejas. Número temático de Concilium 188, 1983, 134 pp.
SCHILLEBEECKX, E. e HALKES, C., Mary yesterday, today, tomorrow. SCM Press, 1993, 88 pp.
(Há versão em espanhol).



2. Artigos em dicionários ou enciclopédias
L. BINGEMER, M.C. et GEBARA, I., María, in: Mysterium Liberationis. Vol II, p. 601-618.
LAURENTIN, R., María, in: Diccionario teológico interdisciplinar. Vol III, p. 413-431.
VV.AA, María-Mariología, in: Diccionario de Conceptos teológicos. Vol II, p.25-39.
VV.AA, Maria (número temático de RIBLA, 2004)
VV.AA. Maria, Mariologia, in: Dicionário de Teologia feminista.


3. Revistas de Mariologia
Ephemerides Mariologicae, Misioneros Claretianos, Madrid.
Theotokos, Ricerche interdisciplinari di Mariologia, Edizioni Monfortane, Roma.
Marianum, della Pontificia Facultas Theologica "Marianum", Roma.


4. Documentos do magistério
LUMEN GENTIUM 8: (A mariologia do Concílio Vaticano II).
PAULO VI, O culto à Virgem Maria (Marialis Cultus), 1974.
JOÃO PAULO II, A mãe do redentor (Redemptoris Mater), 1989.
CELAM, Conferência de Aparecida, 2008 (ver: parágrafos sobre Maria)

(Atualizada em 11 de agosto de 2009. Preferencialmente, livros em português e espanhol) 





Síntese de Mariologia

 “Quando chegou a plenitude dos tempos, mandou o seu Filho, nascido de mulher… para que recebêssemos a adoção de filhos” (Gl 4,4-5). Constantemente na história da salvação, Deus manifesta o seu amor de Pai junto a seu povo. O amor é revelado por meio de uma eleição: uma jovem é separada para que por meio dela o Filho de Deus pudesse assumir a humanidade decaída com o pecado. Assim como por meio de uma mulher (Eva), o pecado “entrou” no mundo, Deus separa uma mulher para que por meio dela chegue a Salvação: dá-se uma nova criação. Há um novo Adão e, do seu lado é tirada a mulher, a nova Eva; um novo povo é constituído.

Maria é a Mulher do sim. O sim dado ao Amor. A obediência dada por amor. A entrega dada no amor. Desta maneira, Maria tem uma grande importância na história da salvação e na vida de muitos cristãos e sua figura é tradicionalmente reconhecida na Igreja Católica.

1.1 MARIA NO NOVO TESTAMENTO

Certamente, a Virgem tem na Bíblia um lugar discreto. Ela aí é representada toda em função de Cristo e não por si mesma. Mas sua importância consiste na estreiteza de seus laços com Cristo.

Maria está presente em todos os momentos de importância fundamental na história da salvação: não somente no princípio (cf. Lc 1 – 2) e no fim (cf. Jo 19,27) da vida de Cristo, mistérios da Encarnação e da morte redentora, mas na inauguração de seu ministério (cf. Jo 2) e no nascimento da Igreja (cf. At 1,14). Presença discreta, na maior parte das vezes, silenciosa, animada pelo ideal de uma fé pura, e de um amor pronto a compreender e a servir aos desejos de Deus e dos homens (cf. Lc 1,38-39.46-56; Jo 2,3) (BOFF, 2004).

Esta presença revela seu sentido total, e com toda a Escritura se a recolocarmos nos grandes quadros e correntes da teologia bíblica onde eles se situam, Maria aparece no término da história do povo eleito como correspondente de Abraão: Ela se apossa, pela fé, da promessa que ele havia recebido na fé. Ela é o ponto culminante onde o povo eleito dá nascimento a seu Deus e se torna a Igreja. Se alagarmos a perspectiva da história de Israel à história cósmica, segundo as insinuações de João e de Lucas, se compreendermos que Cristo inaugura uma nova criação, Maria aparece no início da salvação, como restauração de Eva: Ela acolhe a promessa de vida onde a primeira mulher havia acolhido a palavra de morte e se torna perto da nova árvore da vida a mãe dos vivos (LAURENTIN, 1965).

1.1.1 Maria no Evangelho de Marcos

O Evangelho de Marcos se constitui em duas questões fundamentais: Quem é Jesus de Nazaré? Como ser discípulo de Jesus, o Cristo? Questões que Maria, mãe de Jesus, como todos de sua família e todos da comunidade cristã, inclusive Marcos buscam entender.

No Evangelho de Marcos a pessoa de Maria aparece em duas passagens: Mc 3,31-35 e Mc 6, 3-4. Nestes textos Maria é a mãe biológica de Jesus que busca entender o filho juntamente com seus familiares. A mulher maternalmente solícita pela sorte do filho. Mas, que também é convocada a ser discípula na busca de compreender Jesus e sua missão e acolher sua proposta.  Ela também podia estar entre os primeiros a nutrir preocupações ainda muito humanas pela missão e a obra de Jesus.

Marcos indica que a verdadeira família de Jesus não é a de ordem carnal e que a ela pertencem todos os filhos do Reino. Assim, Maria, Mãe de Jesus é fundamental testemunho dos verdadeiros laços que criam comunhão com Jesus. Depois de ter levado Jesus, seu filho no ventre, era preciso que ela o gerasse no coração, cumprindo a vontade de Deus (cf. Mc 3,35), que se manifestava naquilo que Jesus dizia e realizava. Neste sentido, a figura de Maria “mãe” se harmoniza e se completa com a figura da “discípula” (SERRA, 1995).

1.1.2 Maria no Evangelho de Mateus

No Evangelho de Mateus a pessoa de Maria aparece em dois momentos: nos relatos da infância (cf. Mt 1-2) e no ministério apostólico de Jesus ( cf.Mt 12,46-50; 13,54-58). O primeiro é composto por relatos próprios de Mateus; o segundo está em dependência de Marcos, mas Mateus toma diante dele tal liberdade que é capaz de transformar seu sentido e seu ensinamento (ALVAREZ, 2005).

No Evangelho da Infância em Mateus, Jesus, como todos os meninos, não chega ao mundo sem um pai e uma mãe. Mateus fala de José, esposo de Maria (cf. Mt 1,16) e de Maria esposa de José (cf. Mt 1,24). Maria, por sua vez não tem existência sem José, do qual é esposa, e sem Jesus, do qual é mãe. Maria é aquela que gera e é mãe, ao passo que José é somente o pai legal.

Mt 1,3 fala sobre a concepção de Jesus, diz que esta se realizou “para que se cumpra o oráculo do Senhor, por meio do profeta [...]” e cita Is7, 14, aplicando a Jesus a realidade do “Emanuel” e a Maria a de “virgem”. (Mateus quando) Ao falar do nascimento de Jesus, Mateus recorrendo ao texto de Isaías, não somente assume a interpretação dos LXX, mas ele mesmo interpreta teologicamente esse nascimento: Jesus é o Emmanuel e nasce de Maria Virgem. Neles dois se realiza plenamente o oráculo do profeta: Jesus é o Messias, e Maria é a Mãe-Virgem e, este fato maravilhoso somente pode ser entendido como a obra do Espírito Santo (ALVAREZ, 2005).

A união de Maria com seu Filho é, então, íntima, total e permanente. Desde a concepção virginal, Maria está expressamente unida a Jesus e é inseparável dele. Por isso, os escritores eclesiásticos aprofundam nesta realidade, dizendo que não podemos entender Jesus sem Maria e entender Maria sem Jesus.

Podemos notar, finalmente, como que um contraste nas expressões de Mateus: Enquanto Jesus é o Emmanuel de Deus, Deus – conosco, Maria é a Mãe que está sempre junto do seu Filho. Ela é a resposta permanente à presença sempre atual do Senhor na história.

Quanto ao ser discípulos de Jesus significa cumprir a vontade do Pai no céu, realizar seu plano. Para Mateus, o discípulo integra, então, a escuta da Palavra e sua ação (cf. Mt 5,19;Mt7,24-25), o estar junto de Jesus e sob a sua proteção (cf. Mt 12,49-50). E Maria, com perfeita discípula e “família dele” em um nível muito mais forte e firme do que o dos laços físicos de geração (ALVAREZ, 2005).

Portanto, o Evangelho de Mateus nos fala que Maria está intimamente ligada ao seu Filho Jesus Cristo, desde antes do nascimento e, uma vez nascido para o mundo, está unida a ele nos momentos fundamentais de sua vida e de seu ministério. Assim, Maria aparece, mesmo sem palavras, como testemunha da graça abundante de Deus para seu povo, mas também como mãe que cuida e acompanha o Filho de suas entranhas (ALVAREZ, 2005).

1.1.3 Maria no Evangelho de Lucas

De todos os Evangelhos, Lucas é o que mais nos fala de Maria. Primeiramente nos relatos da infância, onde ela tem um papel mais ativo do que o que vimos em Mateus; em seguida, no marco da atividade apostólica de Jesus, com quatro textos, dois dos quais coincidem com as tradições de Marcos e de Mateus (cf. Lc 4,16-30 e 8,19-21) e outros dois que pertencem à tradição própria de Lucas (cf. Lc 3,23 e 11,27-28); por último, no começo dos Atos dos Apóstolos, quando se inicia a história da Igreja (cf. At 1,14) (ALVAREZ, 2005).

A primeira coisa que temos de afirmar, ao entrar na análise dos textos lucanos sobre Maria, dentro do chamado Evangelho da infância (Lc1-2), é que os textos são fundamentalmente cristológicos e mariológicos. Maria não tem uma identidade e uma vocação própria, mas dentro e a serviço da cristologia. Ela é tudo para Jesus e se transforma e se enriquece plenamente por e para Jesus. Para isto, temos alguns títulos que ilustram esta tão grandiosa discípula: Filha de Sião, Virgem e Mãe, Cheia de Graça, Morada de Deus, Cheia do Espírito, Serva e mulher de fé e Portadora da santa presença. Temos também textos bíblicos que falam da sua experiência como Mãe do Salvador: Lc1, 26-28 (o anúncio do Anjo); Lc1-39-45 (a visita a Isabel); Lc1, 46-55 (o cântico da libertação). Assim sendo, Maria surge em Lucas como a primeira mensageira do Evangelho de Deus: leva a Notícia da paz, da felicidade e da salvação, desde a Galiléia até a região de Judá. Mas Maria é a primeira mulher que acolhe o Evangelho e o comunica a seus irmãos, trazendo-lhes o gozo escatológico, quer dizer, a alegria e a segurança da salvação definitiva (cf. Lc 1,44) (ALVAREZ, 2005).

Em Lucas percebemos a participação e a cooperação de Maria no plano da salvação, desde a anunciação até o início da Igreja: “todos estes unânimes, perseveravam na oração com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e com seus irmãos” (At 1,14) (ALVAREZ, 2005).

Portanto, no Evangelho de Lucas vimos que Maria é apresentada como a Mãe do Salvador e esta em Atos exerce a função de Mãe da comunidade, pois, ela se encontra reunida com esta comunidade nascente para receber em oração a Promessa do Espírito; com esta comunidade reunida com os seus para orar e esperar de seu Filho o presente dos tempos novos. É, finalmente, irmã na comunidade e discípula do Senhor exaltada, que permanece em Jerusalém em cumprimento da Palavra do Mestre (cf. At 1,5-8) (ALVAREZ, 2005).

1.1.4 Maria no Evangelho de João

O quarto Evangelho oferece-nos a história de Cristo, num esforço de “memória viva” que parte da fé pascal (cf. Jo 2,17.22;12,16;13,7;20,9) e é realizada por obra do Espírito, o Paráclito, que é testemunha fiel e o hermeneuta qualificado da vida e da obra do Cristo joânico (cf. Jo 14,15-17;15,26;16,7-11.13.15). O quarto Evangelho é do final do século I e expressa a situação de duas igrejas, primeiro na Síria e depois na Ásia Menor (ALVAREZ, 2005).

A figura de Maria aparece no quarto Evangelho em duas ocasiões, no começo e no final do Evangelho. Em ambas, Maria é chamada “a Mãe de Jesus” (cf. Jo 2,1.3.5;19,26), e em ambas a palavra do Mestre vai dirigida a ela com o nome de “mulher” (cf. 2,3;19,26), mas nunca aparece o nome próprio de Maria. No Evangelho de João Maria é chamada por dois nomes: “Mãe de Jesus” e “Mulher”. Enquanto a expressão “Mãe de Jesus” é um título que contrasta com a outra afirmação, “filho de José”, o termo “mulher” é comum em Jesus para dirigir-se às mulheres (cf. Mt15, 28; Lc13, 12; Jo4, 21; 8,10; 20,13). Contudo aqui, dito à sua Mãe tem uma conotação especial: o termo “mulher” dirigido por Jesus é um termo joânico que aparece em duas ocasiões (em Caná e na cruz) e forma uma espécie de inclusão. A mulher está presente no começo e no fim da vida pública, no momento em que o Messias inicia suas obras e na hora da morte, quando consuma sua obra (ALVAREZ, 2005).

Maria aparece no Evangelho de João, sobretudo em 2,1-12 como intercessora e evangelizadora. Como intercessora Maria apresenta simplesmente a Jesus, a necessidade dos que participam da festa de bodas: “Não há mais vinho” (Jo 2,3). Já como evangelizadora, a segunda palavra de Maria que encontramos no quarto Evangelho é significativa não só pelo que diz, mas também por aqueles aos quais a diz: “Fazei o que ele disser” (Jo 2,5) (ALVAREZ, 2005).

Se em Caná, Jesus lhe disse que ainda não havia chegado sua “Hora” e iniciou seus sinais, aqui, na cruz, na Hora da Páscoa, Jesus realiza seu último e definitivo sinal da salvação, a morte por todos e a entrega do Espírito (cf. Jo 19,30). Assim, Maria é chamada novamente com dois títulos de Caná: a Mãe de Jesus e a Mulher. Maria também é a testemunha por excelência da Páscoa de Jesus diante da comunidade (cf. Jo 19,35; 21, 24). E esta comunidade, ao entender o gesto de seu Senhor, a recebe entre seus bens mais preciosos: Maria passa a ser um bem precioso com que Jesus Cristo presenteia a Comunidade, um dom da Páscoa de inapreciável valor; mas também a Mãe de todos acolhida como tal (ALVAREZ, 2005).

A visão do quarto Evangelho é nitidamente teológica contribui para realçar o papel de Maria no mistério de Jesus. Assim, o Evangelho de João articula os três elementos, Maria – Mãe de Jesus, Maria – Mulher e Maria – Mãe dos discípulos, segundo uma graduação teológica: partindo de Maria – Mãe de Jesus para chegar a Maria – Mãe dos discípulos, com uma maternidade nova.

2.2 OS DOGMAS MARIANOS

Os quatro dogmas marianos: “Maternidade Divina” = “Mãe de Deus” (Theotókos), e “Maria Virgem” = Virgindade, são antigos e estão estreitamente ligados entre si e inseparáveis da fé em Jesus Cristo e a sua formulação histórico- dogmática. Os dogmas da “Imaculada Conceição” e “Assunção de Maria” são mais recentes e estão baseados na dignidade e no significado de Maria Virgem e Mãe de Deus.

2.2.1 A Maternidade Divina e Virginal

Julga-se que o título Theotókos, Mãe de Deus, aparece pela primeira vez, na literatura cristã, nos escritos de Orígenes (†250). Foi solenemente proclamado pelo Concílio de Éfeso (431) (BETTENCOURT, 2004).

Em que sentido Maria é a Mãe de Deus? Toda mãe é mãe de uma pessoa. A Pessoa que nasce de Maria é a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que dela assumiu a carne humana. Maria, porém, não é mãe apenas da carne humana, mas de toda a realidade do seu Filho, o Verbo encarnado. Daí dizer-se que Maria é Mãe de Deus, mas enquanto Deus feito homem.

Deus escolheu Maria, por benevolência ou gratuidade, para ser Mãe Santa. Portanto, encheu-a de graça. Maria correspondeu fielmente ao dom de Deus, dizendo-se e fazendo-se a serva do Senhor (cf. Lc 1,38. 44). Maria foi escolhida como filha de Sião ou como membro de um povo chamado a gerar o Messias. Isto quer dizer que o Sim de Maria é o Sim de uma coletividade; é o Sim de todo o gênero humano, chamado a se prolongar na Igreja através dos séculos (BETTENCOURT, 2004).

Maria concebeu o Filho de Deus de maneira livre e generosa. Para isto, devia ter certo conhecimento do dom e da missão que lhe eram propostos (não se tratava de conhecimento pleno; (cf. Lc 2,50). Maria é privilegiada, mas ela se intitula “servidora de Deus e dos homens” (cf. Lc 2,38. 48). O próprio Jesus ensinou que “o maior deve ser como aquele que serve” (cf. Lc 22,26; Jo 12,13-15).

Desde remota época a Igreja professa que Maria é sempre virgem (no sentido físico). Esta verdade pertence ao patrimônio da fé, como declarou, em conformidade com a Tradição, o Papa Paulo V (aos 7/08/1555): “A bem-aventurada Virgem Maria foi verdadeira Mãe de Deus, e guardou sempre íntegra a virgindade, antes do parto, no parto e constantemente depois do parto” (DS 1880 [993]).

A doutrina da concepção virginal de Maria começa a ter sentido quando abordada de modo contemplativo no contexto da encarnação. As narrativas da infância de Mateus e Lucas são as únicas fontes que falam da concepção virginal de Jesus. Elas testemunham que Maria concebeu Jesus pelo poder da sombra do Espírito Santo sem intervenção masculina (cf. Lc 1,26-38; Mt 1,18-25). Os dois autores estão indicando o interesse na concepção virginal como sinal de escolha e graça divinas. A descrição extraordinária do nascimento de Jesus entra no discernimento cristológico de que Jesus é Filho de Deus, o Messias, desde o nascimento.

Assim, a doutrina da virgindade de Maria é indicativo das origens de Jesus no mistério de Deus que não se explicita apenas por ascendência humana, mas pela iniciativa criadora de Deus. Maria é virgem e mãe. Maria Virgem porque se guardou íntegra para Deus. Virgem por guardar íntegra a Palavra de Deus: “Faça-se em mim…”. Por isso é também a “sempre virgem Maria”: avançou íntegra na “penumbra da não-visão”; avançou em “peregrinação de fé” (LG 58).

2.2.3 Imaculada Conceição

O dogma da Imaculada Conceição significa que, no primeiro instante de sua conceição, a Bem-aventurada Virgem Maria foi, por graça e privilégio singulares de Deus onipotente e em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, preservada de toda mancha da culpa original (DS 2803 [1641]).

Esta verdade, solenemente definida por Pio IX em 08/12/1854, foi aos poucos aflorando à consciência da Igreja. Durante muito tempo, os teólogos perguntavam como poderia Maria ter sido salva por Jesus Cristo se nunca tivesse pecado. Finalmente, João Duns Scoto, O.F.M. (†1308) propôs a fórmula decisiva: “pertence à perfeição do Redentor não somente purificar do pecado, mas preservar do pecado a mais dileta dentre as criaturas” (BETTENCOURT, 2004, p.06).

Maria, portanto, foi isenta do pecado original em previsão dos méritos de Cristo; assim, ela foi remida de maneira mais perfeita do que as outras criaturas.

Maria nunca contraiu pecado pessoal, nem a mais leve culpa. A razão pela qual o Senhor Deus quis outorgar tal privilégio a Maria, se deriva da graça da maternidade divina: não convinha que aquela mulher chamada a ser tabernáculo do Altíssimo ou Mãe de Deus feito homem estivesse, por um momento sequer, sujeita ao domínio do pecado e de Satanás. O anjo declarou Maria “cheia de graça” (Lc 1,26) – o que sugere que desde o início da sua existência ela gozou da plenitude do favor divino.

A riqueza de graças em Maria não impediu que ela vivesse de fé e de esperança, em meio a lutas e dores. A sua fé inspirou-lhe a obediência incondicional a Deus, que lhe pedia cada vez mais generosa. Maria não compreendeu desde o início a grandeza da obra que Deus nela realizaria; também se sentiu perplexa, mais de uma vez, diante do procedimento de seu Filho (cf. Lc 2,49s), mas abandonou-se a Deus sem reservas.

2.2.4 Assunção de Maria

Desde remota época (séculos IV e V), os autores cristãos julgaram que Maria teve um fim de vida terrestre singular; em seus sermões e em escritos apócrifos, professaram a glorificação corporal de Maria, logo após a sua morte na terra. Esta crença foi-se transmitindo até que o Papa Pio XII em 1950 houve por bem proclamá-la solenemente como dogma de fé (FIORES, 1995).

Com efeito, Maria, que não esteve sujeita ao império do pecado para poder ser a santa Mãe de Deus, não podia ficar sob o domínio da morte que entrou no mundo através do pecado (cf. Rm 5,12). Por isto, não conheceu a deterioração da sepultura, mas foi glorificada não somente em sua alma, mas também em seu corpo (FORTE, 1985).

A carne da mãe e a carne do filho são uma só carne. Por isto, a carne de Maria devia tocar a mesma sorte que tocou a carne de Jesus: ambas foram glorificadas no fim desta caminhada terrestre. Existe uma tendência a empalidecer o significado da glorificação corporal de Maria mediante a tese da ressurreição de todo indivíduo logo após a morte: o caso de Maria seria um entre outros pares (BETTENCOURT, 2004).

A Assunção da Virgem Maria é uma participação singular na Ressurreição de seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos (CIC 966).

2.3 MARIA NOS DOCUMENTOS DO VATICANO II: LUMEN GENTIUM E MARIALIS CULTUS

A figura de Maria foi de suma importância para o Vaticano II: o Papa João XXIII abriu o Concílio na festa da Maternidade Divina de Maria (11 de outubro de 1962) e o Papa Paulo VI o concluiu na vigília da Imaculada Conceição (07 de dezembro de 1965). O Concílio, todavia, abre perspectivas de um novo tempo, nos deixando o “Capítulo VIII” da Lumem Gentium. Depois do Concílio Vaticano II, temos a exortação de Paulo VI (02 de fevereiro de 1974) (FURLANI, 2005).

2.3.1 Maria no Capítulo VIII da Lumen Gentium

O capítulo VIII da Lumem Gentium integra o mistério da Mãe de Deus no mistério de Cristo e da Igreja. Este documento dá destaque à fundamentação bíblica e tradicional da doutrina mariana, levando em conta a exegese recente, os Padres da Igreja e dos teólogos posteriores.

No seu conteúdo, representa a doutrina clássica em termos modernos: Maria, a Mãe de Deus e tipo de Igreja é vista como pessoa que se oferece livre e conscientemente à graça de Deus.

A devoção aparece como incentivo para a fé e amor de Jesus. E favorece ao diálogo ecumênico, assumido no Concílio. O Papa Paulo VI na promulgação da Constituição Lumem Gentium, terminou sua alocução proclamando Maria Mãe da Igreja, título que não aparece no documento conciliar, mas foi acrescido às “Ladainhas lauretanas” (FIORES, 1995).

2.3.2 Marialis Cultus

A Exortação Apostólica do Papa Paulo VI (02/02/ 1974), parte da renovação litúrgica, decidida pelo Concílio Vaticano II, para explicar o lugar de Maria no ciclo geral e o sentido das festas propriamente marianas (FIORES, 1995).

A Exortação segue o que orienta o Concílio: [...] promovam generosamente o culto, sobretudo o litúrgico, para com a Bem-Aventurada Virgem Maria; dêem grande valor às práticas e aos exercícios de piedade recomendados pelo magistério [...] (LG 67). Neste ensinamento, Paulo VI articula a questão da cultura e da inculturação do culto devido a Maria, como a Mulher que soube viver no seu contexto e inserir-se no mistério de Cristo, porque foi uma mulher que acreditou naquilo que o Senhor lhe disse.

A Exortação especifica as características e evidencia elementos teológicos e espirituais do culto e de uma devoção mariana para o nosso tempo. Portanto, no seu conteúdo doutrinal, o mistério de Maria deve ser compreendido como um mistério trinitário, cristológico, pneumatológico e eclesial; em relação à devoção mariana deverá seguir quatro orientações: “bíblica, litúrgica, ecumênica e antropológica, para tornar mais vivo e mais inteligível o vínculo que nos une a mãe de Cristo e mãe nossa na comunhão dos santos” (MC 29).

O cunho bíblico em toda forma de culto é princípio e fato reconhecido pela piedade cristã e também pela piedade mariana. O conteúdo bíblico, portanto é referencial para alimentar o amor para com Maria e o culto que a ela se presta (MC 30).

Na característica antropológica, mostra que o mundo moderno requer uma nova imagem de Maria. Os cristãos devem fazer ver em Maria o modelo de pessoa humana, da mulher responsável e co-responsável, em conformidade com a realidade bíblica e levando em conta as exigências do fenômeno da libertação da mulher e do reconhecimento dos seus direitos na sociedade moderna (MC 35).

Na questão do ecumenismo a Marialis Cultos orienta que se mantenham os sentimentos de unidade de todos os cristãos  pois: “[...] todos aqueles que confessam abertamente que o filho de Maria é o Filho de Deus e Senhor nosso, Salvador e único Mediador (cf. 11Tm 2,5), são chamados a serem uma só coisa entre si, com Ele e com o Pai, na unidade do espírito Santo” (MC 32).

O lugar de Maria na liturgia se insere na celebração da obra salvífica do Pai: o Mistério de Cristo. Neste mistério inseriu-se a memória de Maria como Mãe de Cristo, celebrando-se de forma explícita a íntima ligação que a Mãe tem com o Filho de Deus (MC 3-4). Na celebração dos eventos dos mistérios da salvação, Maria aparece associada ao Filho em primeiro lugar na Celebração Eucarística, quando se invoca a memória da “sempre Virgem Maria, Mãe de Deus e Senhor Jesus Cristo” (Oração Eucarística I) e as memórias incorporadas pela liturgia da Igreja e aquelas que nascem da experiência de fé das comunidades cristãs. Da tradição perene e viva da fé da Igreja colhem-se as mais significativas expressões da piedade e devoção marianas (MC 9-15).

Pe. Jair Cardoso Alves Neto

Referências Bibliográficas
ALVAREZ, Carlos G. Maria Discípula e Mensageira do Evangelho. São Paulo: Paulus, 2005. (Coleção do Celam).
BETTENCOURT, Estevão Tavares. Escola “Mater Ecclesiae”: curso de iniciação teológica por correspondência. – Rio de Janeiro.
DENZIGER, Hünermann. Compêndio dos Símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas/Loyola,2007.
FORTE, Bruno. Maria, a mulher ícone do Mistério. São Paulo, Paulinas, 1985.
FURLANI, Maria Aparecida. Apostila de Mariologia”: “ad usum studentium”.- Várzea Grande, MT,2006.
Lumen Gentium. In: Documentos do Concílio Vaticano II. São Paulo: Paulus, 1997.
PAULO VI, Papa. Marialis Cultus. In Documentos de Paulo VI. São Paulo: Paulus, 1997.









Quem é Maria__________

Como era a família de Maria? Como foi sua infância? E sua formação? Como era seu rosto? Sua altura? Seu temperamento? O que fazia antes da Anunciação? O que fez depois?

Os evangelistas não escreveram uma biografia de Maria. Para nós, que gostamos de conhecer detalhes da vida de pessoas importantes, isso é um tanto decepcionante. Não só os evangelhos, mas a Bíblia tem uma finalidade bem precisa: testemunhar a fé de um povo que foi chamado por Deus a uma aliança de amor.

O Novo testamento não é a "História de Maria". Quem está em seu coração é Jesus. São poucas as passagens bíblicas referentes à Maria. Mesmo quando é mencionada, normalmente não é ela o centro do acontecimento descrito.O que a palavra de Deus nos mostra é que Maria Santíssima esteve presente, mesmo de forma discreta, nos momentos centrais da História da Salvação: a encarnação, a inauguração do ministério de Cristo, a crucificação e o nascimento da Igreja com a vinda do Espírito Santo.

Encontramos maior número de informações a seu respeito nos evangelhos de Lucas e Mateus, que dedicam mais espaço a infância de Jesus. Além dos dados, na verdade escassos, fornecidos pelos Evangelhos, a tradição cristã extraiu outros dos Evangelhos apócrifos, por exemplo dos referentes à infância de Jesus, como o Proto-evangelho de Tiago, do “Trânsito da Bem-Aventurada Virgem Maria” e do “Apocalipse da Virgem Maria.

O Novo Testamento nos diz que Maria era uma humilde mulher do povo hebreu, era uma pessoa concreta, historicamente verossímil e longe de ser uma invenção fantasiosa. Os dados estritamente biográficos derivados desse texto informam-nos que era uma jovem pertencente à tribo de Judá e a descendência de Davi; nasceu provavelmente em Jerusalém, casou-se com um carpinteiro, José, passando a residir em Nazaré, uma aldeia da Galiléia, da qual saiu para submeter-se ao recenseamento em Belém. Na época de Herodes, deu à luz um filho, Jesus, e foi obrigada a defendê-lo da tirania do rei, primeiro fugindo para o Egito e depois buscando refúgio em Nazaré.

A historicidade de Maria, confirmada por recentes descobertas, faz desta mulher a grande realidade da encarnação de Cristo. O lugar que Maria ocupa na Bíblia é discreto: ela está ali totalmente em função de Cristo e não por si mesma.

A Virgem Maria é um sol que ilumina sem ofuscar; sem fazer milagres na terra, limita-se a ser Mãe. Assim como dá à luz o seu Filho em Belém, no calvário dá à luz espiritualmente a todos nós, que somos irmãos do seu Filho, tornando-se, na figura de João, a Mãe de cada um de nós.



Fonte consultada:
Com Maria, a Mãe de Jesus/Murilo S.R. Krieger - São Paulo: Paulinas, 2001 


MARIA: uma vida CRISTOCÊNTRICA

Tudo na vida de Maria gira em torno da pessoa de Jesus Cristo. Ela é, sem nenhuma dúvida, uma pessoa de vida cristocêntrica. Tudo em Maria nos leva ao seu filho e à salvação. Maria não faz nada por si mesma, porque sabe que todo o poder vem do amor de seu Filho, Jesus, por toda a humanidade.

Maria sabe exatamente qual é o seu lugar e o seu papel na história da salvação. Mas sabe também que, por ser Jesus o centro de sua existência, ela tudo pode em nosso favor. Por isso, desenvolvemos a campanha do Santo Rosário. Acredito que rezando a oração do Terço ou do Rosário, Maria alcançará de Jesus muitas graças para todos nós.
Você está com problemas e dificuldades em sua vida? Está doente, desempregado, endividado; está longe de Deus, em pecado, levando uma vida vazia? Precisa de um novo sentido para sua vida? Então, peça para a Mãe que o Filho atende!

Não foi à toa que a Igreja proclamou os dogmas Marianos: Maternidade Divina (431), Imaculada Conceição (1854) e Assunção (1950). O dogma da Imaculada Conceição, que significa que Maria nasceu sem a mancha do pecado original, foi confirmado por ela mesma, quando apareceu a santa Bernadette Soubirous, em Lourdes, na França, em 1858, quatro anos depois da proclamação do dogma.

Maria disse à santa: "Eu sou a lmaculada Conceição". Como não pedir a ajuda e a intercessão da Mãe de Jesus e nossa Mãe? Nós temos uma Mãe no céu e podemos contar com ela em nossa caminhada terrena. E uma maneira profunda de falar com ela é rezando o Terço ou o Rosário, que nada mais é do que a meditação dos mistérios da vida de seu Filho, Jesus.

Tudo em Maria nos fala de Jesus. Tudo em Maria nos leva a Jesus. Maria, ao aceitar ser a Mãe do redentor, trouxe-nos a salvação. O papa Bento XV afirma: "a Virgem oferece o Filho e pode-se dizer que, com Cristo, ela resgata o gênero humano".

Maria é, sim, caminho de salvação. Ela nos aponta e nos guia para o Redentor, seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Portanto, levar uma vida cristocêntrica é viver segundo o Evangelho, é buscar e aceitar a salvação que Cristo já nos garantiu, é querer levar o salvador a todas as pessoas que amamos, ou não. Dessa forma, nosso mundo será muito melhor, mais santo, mais cristão, mais humano.

"Tudo na vida de Maria gira em torno da pessoa de Jesus Cristo. Ela é, sem nenhuma dúvida, uma pessoa de vida cristocêntrica"
Texto Pe. Eduardo Dougherty, sj


O Rosário
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 "O Rosário, lentamente recitado e meditado - em família, em comunidade, pessoalmente - vos fará penetrar pouco a pouco nos sentimentos de Jesus Cristo e de sua Mãe, evocando todos os acontecimentos que são a chave de nossa salvação". (João Paulo II)

A palavra Rosário vem do latin Rosarium que significa "Campo de Rosas". A Rosa é uma flor que tem simbolismo cristão. A Rosa é símbolo das missões. Cada vez que se reza uma Ave-Maria é uma Rosa que se oferece a Nossa Senhora. É na boca da tradição que se ouve "não há rosa sem espinhos", mostrando assim por um lado a beleza da rosa e o seu perfume e por outro as dificuldades e sacrifícios que lhe estão associados, mas quando se oferece uma rosa a alguém, pensamos sempre na flor, no que é belo, frágil, perfumado, doce...

O Rosário é um conjunto de 15 x 10 Ave-Marias, e de 15 Pai Nossos que estão inseridos entre cada 10 Ave Marias. Depois tem mais três Ave - Marias e uma Salve Rainha. Para quem reza não se perca na contagem...utiliza-se um fio com contas de modo a ser possível visualizar os conjuntos das Ave-Marias. Ao conjunto de 10 Ave-Marias, Pai Nosso e outras orações pequeninas (jaculatórias) que estão mais adiante chama-se um Mistério .
A maneira mais conhecida de rezar o rosário é a que o divide da seguinte forma:
Mistérios Gozosos: (da Alegria)
  1. A anunciação do anjo a Nossa Senhora, para ser Mãe de Jesus
  2. A visitação de Maria a sua prima Santa Isabel
  3. O nascimento de Jesus no Presépio de Belém
  4. A apresentação de Jesus no Templo
  5. A perda e o encontro de Jesus no Templo entre os doutores
Mistérios Dolorosos: (de Sofrimento)
  1. A agonia de Jesus no Horto da Oliveiras
  2. A flagelação de Jesus
  3. A coroação de espinhos
  4. Jesus é condenado a morte
  5. A crucificação e morte de Jesus
Mistérios Gloriosos: ( de Glória )
  1. A ressurreição de Jesus
  2. A ascensão de Jesus ao céu
  3. A descida do Espírito Santo sobre os apóstolos
  4. A assunção da Santíssima Virgem ao céu em corpo e alma
  5. A coroação de Nossa Senhora como Rainha do Céu
Mistérios Luminosos: (da Luz)
  1. O Batismo de Jesus à margem do rio Jordão por João Batista
  2. Jesus faz seu primeiro milagre nas Bodas de Caná
  3. Jesus proclama o Reino e convida a conversão
  4. A Transfiguração de Jesus
  5. A Instituição da Eucaristia